
A chegada do croata Krovinovic havia colocado o Grêmio no topo em relação ao número de estrangeiros no futebol brasileiro. A liberação, nesta segunda-feira, do argentino Leonel Pérez por empréstimo de um ano ao Racing, deixa o vestiário tricolor agora empatado com o do Botafogo. Não foi por outra razão que o perfil humorístico “Museu de Memes do Grêmio” passou a se referir ao vestiário tricolor como “Reunião da ONU”, dado o número de bandeiras ali presentes: dez, com a do Brasil.
Sem contar o uruguaio Kike Oliveira e o chileno Aravena, ambos emprestados, são 12 jogadores de fora do país, o que revela um momento distinto sob alguns aspectos. Além do desafio de gerir um ambiente cada vez mais eclético, o movimento também confirma a visão mais ampla no mapa do futebol. Por outro lado, põe em cheque a capacidade de incutir em tanta gente diferente a cultura de um clube centenário e de torcida exigente.
“Eu nunca entendi por que o Brasil não olhava com melhores olhos para o mercado africano, que tem muito potencial de talento e até a segunda prateleira europeia. Dá para competir porque o poderio financeiro está se concentrando na Premier League e está tendo um achatamento de outras ligas”, afirma Leonardo Bertozzi, comentarista da ESPN.
Para o jornalista, há dois lados no atual cenário. O primeiro, a favor pelo poderio econômico nos salários praticados aqui na comparação com outros continentes e nos casos de sucesso que acabam chamando outros. O segundo, porém, traz ressalvas.
“Vejo como perigosa a questão cultural. Não há aqui vestiários multinacionais. Isso é algo novo e um desafio para clubes, treinadores e jogadores. É uma novidade para todo mundo o que é muito comum na Europa, com vestiários cheios de nacionalidades e culturas diferentes.”
Cultura em futebol também se refere à maneira do time jogar. Historicamente, o Grêmio formou equipes vencedoras quando a torcida identificou comprometimento e entrega dos jogadores, algo que o time de Luís Castro vinha sendo cobrado. Em determinados momentos também pelo comportamento sereno do treinador à beira do campo e que não mudou nas duas últimas vitórias, até sob vaias. “Essa resiliência advém de um caminho de 53 anos a serviço do futebol. O meu jogo é a luta e meu time é o Grêmio”, explicou o técnico, no sábado.

O elenco atual, com diversos idiomas, não foi construído agora. Mais recentes e mais surpreendentes são sim as chegadas de jogadores de países que antes não se imaginaria servirem ao futebol brasileiro. Em 2024, chegou Braithwaite da Dinamarca; ano passado, Amuzu da Bélgica; e agora Krovinovic da Croácia. Em comum aos três, fora o fato de serem poliglotas, fazerem parte de um nicho com entendimento não importando a língua falada.
“Eu queria experimentar esse desafio. Conheci muitas coisas do futebol brasileiro. Sei que o futebol é diferente do da Europa, mas quando o jogador entende as coisas do Mister, se adapta melhor no campo”, garante, em um português bem compreensível, o meia croata que deve estrear no domingo, contra o Atlético Mineiro.
Quem convive diariamente com os jogadores do Grêmio revela uma facilidade até surpreendente na rotina. A avaliação é que o objetivo em comum e a mesma atividade fim contribuem para que todos se ajudem e se entendam. Nesse caso, a comissão técnica portuguesa tem uma particularidade.
Há bastante tempo juntos, os portugueses liderados por Luís Castro tiveram os passaportes carimbados em vários cantos do planeta. Um deles, no Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, um país envolvido em guerras e que neste cenário cria casca em quem atravessa essa realidade.
Nuno Baptista é o auxiliar com uma tarefa específica nos jogos. É ele quem ajuda Amuzu, jogador com menor facilidade para entender tudo o que é dito em português. Tudo, porque muita coisa o belga já entende. “Na barbearia também tem uma linguagem universal. Os cortes conhecidos são em inglês como o low fade, mid fade ou high fade” conta Deivid Barbosa, barbeiro que atende há mais de uma década os jogadores do Grêmio. “São o nosso degradê” explica “Belo” como é conhecido entre os boleiros.
Nos dias atuais, quando nem a mímica dá conta, a tecnologia está aí para resolver. Quando Amuzu precisa pedir algum auxílio para o roupeiro Antônio Marcos, o atacante não pensa duas vezes. “Ele aciona um aplicativo de tradução e a gente se entende”, brinca “Marquinhô”, como o belga chama o colega.
Fonte: João Paulo Fontoura / Correio do Povo


