
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda-feira (1º) que terá reuniões ao longo da semana com autoridades dos Estados Unidos para discutir a decisão do governo norte-americano de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas internacionais.
Especialistas ouvidos pelo R7 avaliam que o diálogo diplomático pode ajudar a esclarecer os efeitos da medida, mas divergem sobre as chances de uma eventual reversão da decisão.
Para o internacionalista João Alfredo Nyegray, a reunião pode produzir resultados, mas dificilmente terá impacto imediato sobre a classificação das facções. “Quando uma decisão dessa natureza é anunciada pelo Departamento de Estado americano, ela normalmente resulta de meses de análises envolvendo diplomatas, órgãos de inteligência, Departamento do Tesouro, FBI, DEA e Conselho de Segurança Nacional. Ou seja, não se trata de uma declaração impulsiva ou de um mal-entendido que possa ser resolvido em uma única reunião”, afirma.
Segundo Nyegray, o principal papel da diplomacia neste momento é reduzir danos, compreender o alcance da medida e evitar desdobramentos mais amplos. Ele destaca que o Brasil pode tentar convencer os Estados Unidos de que PCC e CV devem continuar sendo tratados como organizações criminosas transnacionais, e não como grupos terroristas, além de apresentar resultados de operações policiais, prisões e apreensões para demonstrar o combate ao crime organizado.
Ainda assim, o especialista pondera que a diplomacia encontra limites quando a decisão está associada à percepção de segurança nacional dos Estados Unidos. “Historicamente, poucos países conseguem alterar decisões americanas quando Washington conclui que determinada ameaça afeta diretamente seus interesses estratégicos”, ressalta.
Para o professor de Relações Internacionais do Ibmec-RJ, Leonardo Paz, a diplomacia ainda pode produzir efeitos. Segundo ele, a reunião servirá para a troca de informações e para que o governo brasileiro apresente argumentos técnicos contra a classificação. “Obviamente, o Ministério vai oferecer todos os detalhes técnicos possíveis para tentar mostrar que essa foi uma decisão equivocada”, afirma.
Paz avalia que o encontro também permitirá compreender melhor os critérios utilizados pelos EUA para justificar a medida. “Você tem que entender um pouco mais os detalhes do lado dos americanos em relação à motivação deles e, ao mesmo tempo, prestar as informações do nosso lado”, explica.
Nyegray considera que uma reversão é tecnicamente possível, mas politicamente improvável no curto prazo. Para ele, isso exigiria que o governo norte-americano concluísse que os fundamentos que justificaram a classificação estavam equivocados ou deixaram de existir.
“Nada indica que essa seja a percepção atual em Washington. Pelo contrário. A classificação faz parte de uma política mais ampla do governo Trump de ampliar o combate a organizações criminosas transnacionais, especialmente na América Latina”, afirma.
Na avaliação do especialista, o objetivo mais realista da reunião é esclarecer os impactos práticos da medida. Entre os temas que devem ser discutidos estão possíveis consequências para empresas brasileiras, exigências adicionais para bancos e instituições financeiras, compartilhamento de inteligência e expectativas dos Estados Unidos em relação às ações do Brasil.
Já para Adriano Gianturco, coordenador do curso de Relações Internacionais do Ibmec-BH, o caminho mais adequado é a negociação. “Na diplomacia tudo sempre é possível e tudo está ali exatamente para ser negociado. Trump e sua administração já fizeram isso no passado. Muitas vezes utilizam medidas como essa ou até mesmo tarifas para, posteriormente, sentar à mesa e negociar”, afirma.
Narrativas em disputa
Nyegray acredita que um dos aspectos mais relevantes será a narrativa que prevalecerá após o encontro. “Se o Brasil concentrar sua argumentação apenas na defesa da soberania, corre o risco de não responder à principal preocupação americana: o crescimento e a internacionalização das facções. Se, por outro lado, apresentar medidas concretas de combate ao crime organizado e disposição para ampliar a cooperação, o diálogo tende a ser mais produtivo”, avalia.
Segundo ele, há também uma dimensão política sensível na negociação. Enquanto o governo Lula buscará evitar a percepção de submissão às pressões de Washington, os Estados Unidos poderão usar o encontro como demonstração de que a medida alcançou seu objetivo de colocar o tema no centro da agenda bilateral.
Reversão improvável
Para Leonardo Paz, a decisão norte-americana tem forte componente político, o que reduz as chances de uma mudança de posição no curto prazo. “Se não houvesse uma pressão da oposição e da família Bolsonaro para que esses grupos fossem considerados terroristas, isso não teria acontecido nesse contexto. O governo brasileiro vinha negociando e discutindo com os Estados Unidos, e esse assunto estava sendo deixado um pouco de lado. Nesse contexto político, não vejo espaço para uma reversão da decisão”, conclui.
Fonte: R7