Governo do Estado deixa em aberto decisão sobre Banrisul

Após dia de tensão, Executivo ainda não havia anunciado, na noite de hoje, posição sobre a operação de venda de ações

Branrisul: Governo deixa em aberto decisão sobre venda das ações
Foto: Alina Souza/CP Memória

Após um dia de muita tensão, o governo do Estado, controlador do Banrisul, não havia, até às 21h desta quarta-feira, anunciado decisão a respeito da operação de venda das ações ordinárias do banco. Duas possibilidades seguiam na mesa: o cancelamento da operação ou a venda dos papeis por um valor cerca de 20% abaixo do projetado inicialmente.

Nesta quarta, as ações ordinárias (ON) do banco fecharam a R$ 23,94 (queda de 0,66) e as preferenciais classe B (PNB) a R$ 23,73 (alta de 7,96). A alta das preferenciais, somada à elevação dos protestos de representantes de diferentes espectros políticos (de oposicionistas a aliados) a respeito da venda aumentou a pressão para o governo desistir.

O Executivo pretende usar o dinheiro da venda dos papeis para quitar passivos e regularizar o pagamento da folha dos servidores. Mas não há garantia de que consiga, mesmo com os recursos, manter os salários em dia no médio prazo.

Na terça-feira, primeira data definida para a precificação dos papeis e a definição dos compradores e respectivos lotes (o bookbuilding), o Executivo gaúcho já havia sido obrigado a alterar o cronograma da venda após o valor mínimo ofertado por ação ficar bem abaixo do esperado.

A quarta foi marcada pela expectativa sobre se o governo, que não se manifesta sobre a operação, mantém ou desiste da venda de ações do Banrisul. Com a possibilidade concreta de prejuízo, anunciada há meses por operadores do mercado financeiro, pesarão sobre o Executivo a possibilidade de desdobramentos sérios, entre eles novos questionamentos judiciais, como, por exemplo, uma ação por improbidade administrativa, e o acionamento de órgãos de controle.

Bandeira fala em nova ação judicial 

“Não é possível que esta venda seja efetuada sem que se cumpra a legislação estadual, isso é uma vergonha para todos”, apontou o administrador e acionista do banco Mateus Bandeira. Ele promete ingressar com uma nova ação, de reparação de danos, caso o preço seja inferior ou próximo ao valor patrimonial do papel. Bandeira presidiu o Banrisul durante a administração da ex-governadora Yeda Crusius, também do PSDB, e é favorável à privatização do banco, mas diverge do modelo de venda de ações adotado pelo governo Eduardo Leite (PSDB) por entender que vai gerar “milhões em prejuízo”. “Vender participação acionária a esse preço (na faixa dos R$ 19,00) significa rasgar dinheiro”, completa.

Em julho, após o controlador anunciar a intenção de vender ações até o limite da manutenção do controle acionário, o ex-dirigente ingressou com uma ação para suspender a venda. O principal argumento de Bandeira é o de que ela não atendia os requisitos necessários para a venda de patrimônio público e era desprovida de uma avaliação econômica. Ele chegou a obter uma liminar, que acabou derrubada. A ação segue em tramitação, ainda sem julgamento do mérito.

Também hoje, deputados do MDB, do PT, do Novo, do PDT, do PSL e do PSB confirmaram participação em um manifesto contra a venda das ações do Banrisul, marcado para o início da tarde desta quinta, na Assembleia Legislativa. “Vamos nos posicionar pela não venda. E, a depender do valor de venda, poderemos sim ingressar com ação de improbidade”, adiantou o deputado Sebastião Melo (MDB), um dos principais articuladores do movimento.

O que une representantes de partidos de esquerda, centro e direita, com visões opostas a respeito da privatização ou não do banco, é a possibilidade concreta de prejuízo do negócio, cujo alerta partiu de acionistas e investidores.

Perdas atingem mais de R$ 200 milhões, mostra estudo

“Chamamos a atenção porque na prática falamos de uma operação que envolve um quarto do banco, sem avaliação econômico financeira. O mercado não substitui essa avaliação, o mercado é o momento. E, do outro lado da mesa, há investidores profissionais, qualificados, grandes institucionais. Eles não pagam ágio. Isso não existe”, adverte a gestora da Zenith Asset Management, Débora Morsch. Também favorável à privatização do banco, Débora critica as vendas fracionadas promovidas desde a administração de José Ivo Sartori (MDB).

Na audiência pública realizada na Assembleia Legislativa para tratar do tema, ela apresentou um estudo apontando que as perdas decorrentes das três vendas já realizadas somaram R$ 207,5 milhões (R$ 128,6 milhões referentes a valorização posterior das ações vendidas e R$ 78,9 milhões em proventos distribuídos pelo banco desde então). Na que é objeto de debate, conforme ela, a combinação entre o volume expressivo de ações, a venda a profissionais e a informação pública de que o governo precisa dos recursos acabou por derrubar ainda mais o preço. “Quando você coloca um lote grande para vender, em uma venda restrita, e todo mundo sabe que você precisa do dinheiro, o mercado vai fazer o quê? Pagar menos.”

Entenda melhor 

O sinal vermelho para o governo acendeu pela primeira vez na tarde dessa terça-feira, data limite do bookbuilding e da fixação do preço por ação. A procura ficou abaixo do esperado, a maioria das ofertas recebidas precificou o papel em R$ 18,50 e os bancos coordenadores da operação indicaram que esse era o preço de fechamento. A configuração abre margem para os questionamentos judiciais sobre uma venda por preço inferior ao chamado valor patrimonial da ação. No final do dia, o controlador seguia aguardando ofertas de investidores internacionais capazes de elevar o valor, o que não aconteceu. Como consequência, a precificação não saiu.

A estratégia foi elevar o preço mínimo para R$ 19,00. Só que, com a elevação, não havia reservas suficientes e a alternativa foi diminuir o total de ações em oferta. Na madrugada, o banco divulgou novo fato relevante, baixando para 71.350.686 o número de ações à venda (com possibilidade de mudanças) e alterando todo o cronograma da operação. O bookbuilding, a fixação do preço por ação, e a reunião do Conselho Diretor do Programa de Reforma do Estado aprovando o preço foram transferidos para esta quarta. O início das negociações das ações, para a sexta-feira, dia 20. E a data de liquidação para a segunda-feira, 23. A movimentação acabou por gerar mais desgaste político, a desconfiança dos investidores e a possibilidade concreta de suspensão.