Uma autorrevolução silenciosa

Meditation Park explora protagonista que precisa se reinventar após os 60

Foto: Divulgação

Imigrante chinesa em Toronto, Maria (Pei-Pei Cheng) tem um sorriso no rosto o tempo inteiro. Ela compra peixe com um ar amável, mesmo quando o vendedor tenta enganá-la com um exemplar horroroso ela responde de forma engraçada; ela prepara as refeições para o marido com aparente felicidade e recebe com amor a filha, o neto e o genro para jantares. Maria também é silenciosa e só durante a maior parte do tempo.

Talvez esse excesso de afabilidade da protagonista de Meditation Park (2018) vá irritar espectadores como eu. Em um julgamento rápido, o longa dá impressão de que falta um quê de vontade própria para a personagem. Já a filha Ava (Sandra Oh) é o oposto disso. É uma mulher que não relega sua cultura, mas é independente e forte.

Apesar dessa minha incomodação inicial, a vida de Maria Whang, mesmo que sem qualquer emoção ou sobressalto, parece muito boa. Tudo está muito bem até a descoberta da traição do marido. Ela encontra nada menos que uma calcinha no bolso da calça do companheiro. A partir de então observamos que ela pende entre se transformar, se autoconhecer, ou se manter na mesma condição. A traição do marido, no entanto, acaba sendo um ponto de mutação para aos 60 anos – finalmente!! – começar a viver a partir das suas próprias escolhas.

As escolhas da direção do filme, no entanto, poderiam ser mais contundentes e originais. Os planos revelam pouca dramaticidade. A solidão da protagonista, por exemplo, poderia ser melhor explorada, mas a diretora Mina Shum opta pelos closes para as emoções mais fortes e planos abertos assim que um segundo personagem entra em cena.

Em alguns momentos também sente-se que o marido (personagem de Tzi Ma) poderia ser melhor explorado psicologicamente na trama. Fica claro que ele não é uma pessoa má, mas a dualidade do seu comportamento fica muito na superfície. Já os pontos de mutação de Maria começam com a vida lá fora. É na rua que ela encontra pessoas mais livres, que alugam vagas de estacionamento, o que é proibido, trazendo um pouquinho de transgressão para uma mulher que sempre fez tudo tão certinho.

O filme é uma comédia dramática que poderia ter momentos de irrupção mais acentuados. Percebe-se que há uma exigência não muito grande termos de planos, cores e dos próprios personagens. A escolha da diretora parece ser por tentar agradar um público maior, sem grandes distensões ou grandes rupturas. É um longa médio, mas não pode ser rejeitado considerando as tradições da cultura chinesa. Claro que as coisas estão mudando, mas faltou explorar um pouquinho mais.