Oscar não é uma premiação exatamente justa

O grande premiado deveria ser Infiltrado na Klan

Crédito: Divulgação

Se o Oscar fosse uma premiação justa, o grande premiado da noite teria sido Infiltrado na Klan e eu teria perdido a aposta não feita no bolão da firma. Quando assisti ao longa Green Book – o Guia no cinema tive certeza absoluta de que este seria o grande vencedor da noite de gala da sétima arte. O filme é envolvente, divertido e tem atuações marcantes de Viggo Mortensen e Mahershala Ali, um dos ótimos atores da atualidade. Além disso, o Sindicato dos Produtores premiou Green Book poucos dias antes da premiação no Dolby Theater, em Los Angeles.

As fichas, no entanto, estavam todas em Roma. Quase todos os críticos de cinema apostavam no filme do mexicano Alfonso Cuarón por diversos motivos. Seja porque Roma tem uma fotografia incrível, é sensível, muito bem construído – a montagem, a edição, fotografia, direção, roteiro são impecáveis -, tudo nele é bom. Além disso, a vitória seria um belo tapa de luva no presidente que pretende construir um muro na fronteira dos Estados Unidos com o México.

Quanto a Green Book cheguei a ouvir que o filme é a cara da Sessão da Tarde e mentiroso. Nem ao céu, nem à terra. O longa dirigido por Peter Farrely – o mesmo diretor de Débi e Lóide, Quem Vai Ficar com Mary? e O Amor é Cego – sim, isso é verdade!, traz uma biografia com algumas inconsistências porque a família do músico Don Shirley diz que não existiu tal amizade. No entanto, essa é uma “inverdade” que realmente retira a importância de um longa que discute o racismo nos EUA ou diminui as atuações e a importância dos personagens retratados? Minha opinião é que não. Algumas licenças cinematográficas são permitidas e necessárias.

As inconsistências desse filme são totalmente diferentes daquelas apresentadas em Bohemian Rhapsody onde há erros de datas de shows, de composição de músicas e o principal: mostra que o grande amor de Freddie Mercury foi uma mulher! Não, gente, esse quesito não é exatamente uma mentira.

A Mary Austin existiu de forma impactante na vida do músico; sendo um grande amor e tendo seguido amiga dele mesmo após o fim do relacionamento (aliás, sua casa virou local de peregrinação dos admiradores do cantor), sem contar que ela recebeu boa parte da herança do ícone do rock. Porém, o filme peca ao exagerar na tentativa de atrair um público heteronormativo para o cinema. Deu certo, mas fez os fãs que conhecem bem a história do Queen e de Mercury odiarem o filme. Bohemian é visto quase como um desrespeito à memória do cantor e compositor.

Bohemian Rhapsody passa para a história como o “ruim, mas é bom”. Em breve, ao zapear os canais da TV ou um catálogo streaming, você não terá vontade de ouvir novamente as músicas? Claro que sim. Sem contar que a reconstrução do show Live Aid é memorável. Já Infiltrado na Klan, dirigido por Spike Lee, que finalmente ganhou um Oscar, no caso por roteiro adaptado, certamente estará no catálogo da Netflix e não será esquecido. Porém não foi premiado conforme merecia. Além de recuperar uma história real – muito melhor reconstruída do que Bohemian e Green Book – o gancho com a atualidade é tenebroso e emocionante. Chorei no final da sessão, admito. Chorei porque o fanatismo, o racismo, que talvez estivessem encobertos na sociedade estadunidense, estão mais uma vez eminentes.

Quem não assistiu, imploro, assista. O longa reconta a história de um policial negro que se infiltrou na Ku Klux Klan no final dos anos 1970. O objetivo era mostrar que a organização ainda existia nos Estados Unidos. Na cerimônia deste domingo, usando dois anéis significativos para o momento, sendo um deles com a palavra “hate” e o outro com “love”, Spike Lee subiu ao palco do teatro e disse:

– A eleição de 2020 está aí. Façamos uma escolha certa entre amor e ódio. Vamos fazer a coisa certa!

Tapinha de luva em Trump, assim como o reconhecimento de melhor filme estrangeiro e melhor diretor a Roma são um viva, México! Pensando bem, a Academia faz alguma justiça, sim.