Redução da desigualdade estanca pela primeira vez em 15 anos, mostra estudo

Desemprego e crise nas contas públicas são as causas, cita a ONG Oxfam Brasil

24,8% das crianças e dos adolescentes estão em privação de saneamento | Foto: Marcelo Casal Jr / ABr / CP

Pela primeira vez em 15 anos, a redução da desigualdade de renda estancou no país. É o que mostra um relatório da ONG Oxfam Brasil. O documento atribuiu a piora a uma série de indicadores, incluindo a elevação do desemprego e a crise nas contas dos governos, que limita as políticas públicas voltadas aos mais pobres e ao investimento.

Com isso, o Brasil subiu um degrau no ranking mundial da desigualdade de renda, passando a ser o 9º país mais desigual em um total de 189 nações. De acordo com a entidade, desde 2002 o índice de Gini (medida de desigualdade desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini) da renda familiar per capita vinha caindo a cada ano, o que não foi observado entre 2016 e 2017, quando ficou estagnado.

O Brasil passou a ter cerca de 15 milhões de pessoas na pobreza em 2017, ou seja, 7,2% da população segundo os critérios do Banco Mundial, que define a renda diária de até US$ 1,9 dólar por dia. Em relação a 2016, esse total significa aumento de 11%.

Para a entidade, um elemento adicional para piorar o cenário foi a aprovação do teto de gastos. A emenda constitucional 95, proposta pelo governo Michel Temer (MDB) e aprovada 2016 para impedir o aumento das despesas públicas acima da inflação, por duas décadas, é considerada uma “medida extrema” pela entidade.

Segundo o cientista político e coordenador de campanhas da Oxfam, Rafael Georges, as mulheres e os negros são as camadas mais afetadas da população. “As mulheres têm o que chama teto de vidro. Elas são as primeiras a terem de retornar aos serviços domésticos, a terem que retomar os cuidados de crianças caso a renda da família caía muito e não se possa pagar por uma creche. Tudo isso afeta a ascensão da carreira delas. E algo semelhante acontece com a população negra que, em geral, ainda tem escolaridade menor que a população branca”, explicou Georges, em entrevista para o Guaíba News.

De acordo com o relatório, pela 1ª vez em 23 anos houve retrocesso quando comparadas as rendas dos homens e das mulheres. Baseado em dados do IBGE, o estudo mostra que as mulheres recebiam cerca de 72% do ganho dos homens em 2016. O número caiu para 70% em 2017.

A íntegra do estudo País Estagnado: um retrato das desigualdades brasileiras pode ser conferida aqui.