Averno: uma alegoria do inferno na Bolívia

Produção flerta com o realismo fantástico e a cultura andina

Foto: Divulgação

O longa Averno teve sua primeira exibição no Brasil durante a programação de longas estrangeiros do Festival de Cinema de Gramado. Na trama, o jovem Tupah (Paolo Vargas), um engraxate, é desafiado a encontrar o tio Jacinto, um conhecido artista local, que deveria cantar durante o funeral de um importante militar de La Paz.

Averno, cujo significado é inferno, seria um lugar mítico onde os habitantes andinos convivem, segundo a lenda, entre vivos e mortos. No imaginário popular, muitos ouviram falar sobre esse local mítico, mas poucos sabem onde realmente está localizado. O clima é de surrealismo do início ao fim.

O diretor Marcos Loayza, que vinha fazendo comédias, claramente ingressa no gênero fantástico. Apesar da referência ao inferno de A Divina Comédia, o cineasta destaca que há grande mistura de elementos. “Não é possível mostrar os mitos andinos sem uma mescla de lendas e personagens que fazem parte do imaginário das pessoas. Por exemplo, as serpentes e os sapos aparecem muito porque têm uma forte relação com a cultura”, disse em Gramado na última quinta-feira.

Diferentemente do sentido bíblico, esses animais são considerados seres que trazem sorte porque a troca de pele anuncia um caminho a ser seguido de acordo com a cultura andina. O diretor relembra que grandes líderes indígenas levam ‘serpentes’ em seus nomes. Pode-se citar o exemplo de Túpac Katari, líder de uma rebelião do povo aimará contra as autoridades coloniais espanholas na Bolívia no século XVIII.

Além disso, os personagens mitológicos como o anchancho, um duende mineiro presente na cultura dos Andes e o Lari Lari, um negociador ardiloso e meloso, estão na trama desafiando o protagonista. Loayza reconhece que parte do próprio público boliviano não os reconhece mais, sendo esse um dos motivos para colocá-los em tela.

Questionado a respeito da motivação do personagem principal, que passa o filme inteiro correndo de adversários que querem matá-lo, o diretor explica que a relação tem sentido
“Em quase todos os filmes do Ocidente, a motivação tem que ser muito grande, tal como a busca pela salvação de uma pessoa que foi sequestrada. Nesse filme não há isso, é quase como se o protagonista caísse em um tobogã. O destino mostra que não tem retornar, depois que você entra nesse circuito, não tem mais como sair. Tem que seguir adiante”, destaca.

Em uma relação paralela ao filme, La Paz teve um bar chamado Averno. Durante a ditadura militar no país (1964 a 1982), os intelectuais bolivianos se reuniam no local. Lá estavam junto com o povo comum e podiam discutir política livremente. “Eles se enborrachavan com os pobres e os trabalhadores. Por isso, é uma local mítico como bar”, ressalta Loayza. Na película, diversos bares diferentes aparecem fazendo uma relação com esses “infernos” pelos quais o personagem precisa atravessar para chegar ao destino.

Ter ideia desses elementos básicos da cultura andina poderá ser valioso para a compreensão do filme que mescla aventura – em uma profusão de lutas e corridas para fugir de perseguições – lendas e elementos surreais.

Dificilmente haverá estreia do longa nas salas de cinema do Brasil, mas a distribuidora deverá colocar a película em plataformas por streaming no próximo ano. O filme te um grande potencial para estar presente em festivais como o Fantaspoa, por exemplo.