SEMPRE CABE MAIS UM…

Coração de cobrador de ônibus é coletivo como o meio de transporte em que ele exerce a profissão. Sempre cabe mais um(a)! Alguns educados; um que outro sério como criança mijada; algum mais grosso que dedo destroncado. Os prestativos, os engraçadinhos, os falastrões e os galãs do transporte de massa que não podem ver um rabo de saia que já emplumam que nem galinho garnizé ciscando no terreiro.
Como sou usuária desse transporte, cenas das mais diversas passam diuturnamente pelos meus olhos e ouvidos atentos… Lindo de ver! O cobrador feio como talho na bunda… a namorada rechonchuda e ciumenta toma conta do espaço na frente, de pé… troca de olhares… cumplicidade… cheios de amor pra dar… agora ela senta no lugar de um idoso e o enlevo continua… sob a trilha sonora de uma página musical do cancioneiro sertanejo no celular da querida… o amor é lindo… cego… surdo e espaçoso no coletivo Assunção…
Faz tempo que não me encontro com um desabotinado que tem ojeriza de idoso… pensa por certo que vai permanecer mumificado na juventude que ainda lhe resta. Desde: “Vamo caminhá tia” (pras senhorinhas que ficam de pé por falta de banco, na frente) à “dizeção” de nombretes (palavras chulas), lavação de roupa suja e barbáries impublicáveis… “Ó essa aí qué passeá, embarca aqui e desembarca na outra, não tem o que fazê essas véia”!…
Outro dia, cobrador e motorista falavam em alto e bom som de um colega… “Fulano? fulano é corno, aquele que trabalha na madruga… a mulher “boto-lhe um par de aspas maior que a história grega”… e a gente ali, refém da ignorância, do humor do motorista que freia com gosto só para ver as pessoas se aboletarem como carga de animais vivos.
Fui testemunha ocular do voo de uma passageira. O emburrado e mal amado condutor “sofrena e desaçulera” para eu desembarcar… saio pela porta da frente… quando me deparo com a cena, na porta de trás, pendurada uma mulher trintona e, por sorte, seca de corpo voava como pandorga, até o cobrador se dar conta do acontecido. Não morreu porque não era a hora!
Gosto de ver a namorada do “motora”. Ela viaja junto, ele tira o olho da estrada e ela fica do ladinho ronronando como gata no cio o tempo todo… isso que tem um aviso -‘ NÃO CONVERSE COM O MOTORISTA”. Que nada! E como assuntam… hora entre dentes, resmungadinho, hora entre risos e olhares lânguidos, e o coletivo andando…
Tem um que eu conheço que fica no celular, no “vatezapí” charlando com as queridas, por certo, o tempo todo… baixa a cabeça e a direção vai solita até nas curvas… acho que já está tão acostumada que criou vida própria…
Outro malabarista do volante, quando tomava o rumo, botava um copo entre os joelhos, servia o cafézinho e ia entre uma mordida e outra num naco de pão, sorvendo o pretinho básico e ao mesmo tempo dando opinião e se consagrando na direção.
Vi tudo e não vi nada com estes olhos que a terra há de comer um dia! Deuzulivre!