Divulgação/O Processo

O documentário O Processo faz um claro recorte dos fatos que culminaram com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. A diretora Maria Augusta Ramos, que disse não ser ativista e nem defensora de teses, mostra acreditar que os procedimentos legislativos que culminaram com a deposição da petista foram um golpe. O filme estreia amanhã no Cinebancários e Espaço Itaú.

Na linha do tempo, o longa ressalta que o processo começou em dezembro de 2015 após a negativa da bancada do PT em dar votos favoráveis a Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados. A bancada petista fechou questão pela admissibilidade da investigação por quebra de decoro parlamentar. Dessa forma, tramitou na Comissão de Ética da Casa processo contra Cunha porque ele mentiu ao afirmar que não possuía contas no exterior.

No mesmo dia, ele anunciou abertura do processo de impeachment protocolado pelos juristas Hélio Bicudo (um dos fundadores do PT), Miguel Reale e Janaína Paschoal. As cenas que mostram Janaína, por sinal, são caricatas. Uma delas mostra a professora tomando um Toddynho antes da sessão da comissão especial que analisou as acusações contra a mandatária.

As sessões da comissão são vistas, aliás, como um retrato da política brasileira. Cartas marcadas e resultados de relatórios já são esperados. Na prática, ao espectador, a impressão que passa é de que não existe nenhuma investigação, apenas argumentação e defesa de teses prontas.

Em certo momento, a senadora e atual presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, disse em uma reunião de equipe, entre outras palavras, que sabemos que há dia e hora marcada para ela sair. Mas a política pode não deixar de ser feita. Ou seja, naquele momento, era necessário não esmorecer mesmo sabendo-se com antecedência o resultado do processo. A diretora acompanhou as reuniões da comissão especial do impeachment e do então advogado-Geral da União José Eduardo Cardozo com a bancada do PT e PC do B.

Por outro lado, o documentário é confuso para quem não acompanhou os fatos ou não tem familiaridade com termos jurídicos. Quando a questão das pedaladas fiscais é esmiuçada entre discursos de defensores e opositores da ex-presidente, o espectador poderá ficar perdido.

Os momentos que mostram Dilma são os que trazem emoção ao documentário. Em seu último discurso antes de ser afastada da Presidência da República, Dilma Rousseff disse: “Eu já sofri a dor indizível da tortura, a dor aflitiva da doença, e agora eu sofro mais uma vez a dor igualmente inominável da injustiça”. A petista foi presa e torturada durante a ditadura militar.

Quando Cardozo fala que a crise de consciência dos acusadores de Dilma não elimina “a maquinação de um golpe”, ele acaba por representar uma parcela inconsolável da população diante do resultado do rito legislativo.

Por fim cabe destacar que o documentário é posicionado e não tenta esconder o viés de contar a história sob a ótica do PT. Faltou ao longa valorizar e explorar mais a fundo as artimanhas políticas que resultaram na derrocada da ex-presidente.