Discussão morna sobre a cegueira

Teu Mundo Não Cabe Nos Meus Olhos, do diretor Paulo Nascimento (mesmo do ótimo A Oeste do Fim do Mundo), traz uma discussão sobre a cegueira para as telas e a oportunidade de reversão da deficiência. É notável o esforço de Edson Celulari como protagonista da história. Além de estar com alguns quilos a mais para interpretar o personagem, o ator dá naturalidade à falta de visão, não gosta de ser tratado como vítima. Também não há nenhuma pretensão de superação.

O filme narra a história dele, Vitório, um pizzaiolo que sempre morou no bairro paulista do Bixiga. Deficiente visual desde que nasceu, ele está completamente adaptado às condições em que vive e parece não sentir vontade de enxergar. O personagem faz quase todas as tarefas sozinho. Conta ainda com a esposa Clarice (Soledad Villamil); a filha, Alicia (Giovana Echeverria), e o faz-tudo, Cleomar (Leonardo Machado).

O problema do filme é que para além do esforço de Celulari, os demais atores são desperdiçados. O talento de Soledad Villamil e Leonardo Machado não aparecem na trama e boa parte disso se dá porque as afinidades (ou a falta delas) não emocionam: nem a relação entre o pizzaiolo e a esposa, nem o convívio entre o pizzaiolo e o garçom, muito menos as relações pai-filha ou mãe-filha.

O roteiro e as falas do dia a dia não ajudam muito na construção dramática. Mas preciso destacar que a cena em que o restaurante é atacado por ladrões é a exceção. Vemos na tela o lado mais dramático da cegueira: a vulnerabilidade.

Acredito que faltaram mais cenas de vulnerabilidade atingindo o personagem cego em uma mega cidade, por mais que o pizzaiolo resuma sua vida ao bairro das cantinas italianas. Também falta emoção nos momentos em que eles vão ver o Corinthians jogar, por exemplo.

Celulari mostra, em sua resistência ao se adaptar à nova possibilidade – enxergar – como uma prisão interna, mas a trama não explica bem o porquê. Assim, fica parecendo que falta algo um elo na história, nem que seja uma explosão de sentimentos mais contundente por parte dos personagens que cercam o pizzaiolo. Está longe de ser um filme ruim, mas está distante da força dramática de A Oeste do Fim do Mundo.