Empoderamento das “desquitadas”

A tradução do The First Wives Club para O Clube das Desquitadas já mostra que a comédia tem a cara dos anos 1990. Nem por isso a adaptação do livro homônimo de Olivia Goldsmith perde a graça e a sua validade. Particularmente, gosto de revisitar filmes antigos, em especial, se filmados em película.

O Clube das Desquitadas é bom e não à toa, levou milhares para os cinemas na época da estreia, por conta do talento de Diane Keaton, Bette Midler e Goldie Hawn. A trama fala de três nova-iorquinas que se reencontram durante o funeral de uma amiga que se matou após ser abandonada pelo marido. Elas resolvem unir forças, já que estão atravessando dilemas semelhantes. Parte do sucesso do filme, pelo menos na época, ocorreu por conta do reflexo de personagens muito semelhantes ao que as atrizes construíram em termos de imagem pública.

Goldie Hawn é a atriz decadente, que vive preenchendo os lábios e fazendo plásticas. Diane Keaton, por exemplo, a eterna Annie Hall de “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa” (1977), de Woody Allen, se chama justamente Annie neste filme de 1996 e é perseguida pela mãe dominadora. Midler é a mãe judia briguenta.

Dirigido por Hugh Wilson, o Clube, no entanto, cai naqueles estereótipos de mulher infeliz divorciada. Todas elas têm em comum o fato de seus ex-companheiros a terem abandonado para ficar com outra mais jovem. Muitos filmes, inclusive posteriormente, tiveram a mesma ideia central. Outro estereótipo é o da jovem loira burra que agarra o marido alheio. Aliás, um destaque do filme é Sarah Jessica Parker. Shelly, sua personagem hiper estereotipada, forma com o ex-marido de Midler o casal de novos-ricos que serve de coadjuvante para algumas das melhores cenas do filme.

Apesar dos clichés, o empoderamento dessas mulheres ao longo da trama é evidente. O mote inicial, a vingança, aquilo que traz satisfação enorme para quem se sente injustiçado, acaba por ser abandonado como conceito fundamental: as mulheres rejeitadas percebem que finalmente são livres. Uma cena marcante, por mais que seja um detalhe, é protagonizado pela mãe de Annie (a personagem da atriz Eileen Heckart).

No início do filme ela diz que uma mulher de 46 anos deveria voltar para o marido, pois em busca de um novo amor, ela encontraria, no máximo, alguém para matá-la (e o jeito que ela fala é muito engraçado). Depois, resumidamente, a mãe dominadora diz que Annie não está ficando nem mais jovem nem mais magra, mas isso é que menos importa.

P.S. o longa está disponível no Netflix.